
Biografia
Manuel Rui Alves Monteiro nasceu no Huambo em 1941, tendo vivido durante anos em Coimbra onde se licenciou em Direito. Em Portugal foi advogado e membro da direção da revista "Vértice", de que foi colaborador. Regressou a Angola em 1974, onde ocupou diversos cargos políticos, tendo sido Ministro da Informação do Governo de Transição. Foi também professor universitário e Reitor da Universidade de Huambo, e posteriormente funcionário superior da Diamang e de novo jurista. Um dos principais ficcionistas Angolanos.
Obra poética:Poesia sem Notícias, 1967, Porto, e. a.;
A Onda, 1973, Coimbra, Ed. Centelha;
11 Poemas em Novembro (Ano Um), 1976, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Dois), 1977, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Três), 1978, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
Agricultura, 1978, Luanda, Ed. Conselho Nacional de Cultura / Instituto Angolano do Livro;
11 Poemas em Novembro (Ano Quatro), 1979, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Cinco), 1980, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Seis), 1981, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Sete), 1984, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
Cinco Vezes Onze Poemas em Novembro (Reúne os 5 primeiros livros da série 11 Poemas em Novembro), 1985, Lisboa, Edições 70;
11 Poemas em Novembro (Ano Oito), 1988, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
Assalto, sem data, Lisboa, Plátano Editora.
Serenata
Caem à noite pedras sobre o templo do silêncio de espaço um ruído de automóvel um toque de sinos de uma igreja monotonia diurna que não quebra a queda das pedras no silêncio De dia o templo é noite e à noite há o silêncio o esgaravatar de uma gaivota em fogo o estalar de folhas novas numa árvore sabendo a vício este cigarro de cheira a seiva dos pinheiros E as pedras caem como chuva ou neve todas as noites que noites já são poucas E a seiva pedra sobre o templo e a gaivota o vício a folha quebrando este silêncio Onde as guitarras? Os quissanges acontecem longe (No reino de Caliban II - antologia panorâmica de poesia africana de ex- pressão portuguesa)
Mar novo
1 E a embarcação aparecia como um barco de recreio. Do pescador a musculatura dolorosamente suada merecia uma simples pincelada de silhueta negra impressionismo fácil afirmação exótica de que o dongo não andava sozinho. 2 Mas é novo este azul tela rasgada é novo o nosso olhar. É nova esta forma gestual de espuma feita sabor de amor de guerra e de vitória em nossas bocas férteis em nossa pálpebras de antigo medo clandestino soletrando a lágrima quando era o nosso mar recordação também escravizada: caminho secular de ir e não vir. 3 É nova esta areia este marulhar de fogo nos ouvidos quase notícia do rebentamento maior sobre o inimigo. É novo este calor como se o sol fosse um ananás coletivo suculento rasgado pelos dedos da madrugada mais quente e mais suave. 4 E é bom medir a água evaporada sobre a concha a alga a rocha. Medir também teu corpo natural onde encontrar a boca os pés os olhos a palavra. 5 E é bom verificar as mãos. Principalmente as nossas mãos umedecidas pelo mar. As mãos que tocam as coisas As mãos que fazem as coisas As mãos. As mãos terminal de carga e de descarga do nosso pensamento As mãos mergulhadas sob a água. na (re)descoberta tímida das essências no pulsar submarino de uma nova esperança. 6 Tudo é fugaz entre o desenho do teu pé na areia e a onda que desfaz a marca Entre a guerra e a paz retorno fisicamente o poema a onda constante meditação primeira. Nós e as coisas. Nada permanece que não seja para a necessária mudança. Que o diga o mar. (Cinco vezes onze - poemas em novembro)