
Biografia
Nascido em Angola. Viveu em Lisboa, Maputo e Londres, onde trabalhou na BBC. Em 1976, ingressa no Ministério dos Negócios Estrangeiros: Washington - Conselheiro de Imprensa junto da Embaixada de Portugal. No mesmo ano transferiu-se para Brasília, Brasil.
Obra poética:Signo da Balança, 1968, s/l, e. a.;
Norte a Sul, 1981;
Oceanografia, 1984;
Ultramarino, engloba poemas dos 3 primeiros livros, 1997, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda.
A Walt Whitman (fragmento)
"Me imperturbe, standing at ease in nature" Walt Whitman I página a página virando as folhas (todas) uma a uma encontro pouco a pouco e duma vez o corpo inteiro o delta deste correr para o mar de sensações desordenadas íntimas agudas este estar só como quem de repente se vê sem dar por isso e até que se aperceba no espelho duma montra familiar fugaz um pouco desfocado mas pouco a pouco e de fora para dentro inteiro e duma vez noutra realidade que sendo inesperada se afirma inexcedível essa (eu diria) com que ando por aí de corpo inteiro lendo portanto a tua poesia (Ultramarino)
O velho no parque
é por inconformismo que venho aqui sentar-me neste parque mais velho do que eu há um raio de sol que me conhece e vem lamber-me as mãos quando me vê de resto não suporto este verde molhado este romper de brancos e amarelos sei de memória as vozes quotidianas e atento aguardo a noite que as sossega a minha noite pássaro sem asas onde abrigar a célere cabeça (Ultramarino)"os meus navios afundei-os todos"
os meus navios afundei-os todos ante um luar puríssimo humilhado ó meu país ó mapa desdobrado sobre a areia não sei porque te invoco ó sepultura aberta e saqueada existes só no espaço em que te habito aqui numa praia distante entre as rochas e conchas que me ferem os pés e me fazem sofrer invoco-te e és real medonho e impossível ó flâmula hasteada ó marinheiro triste nos porões (Ultramarino)
Palavras do exilado
as árvores já perderam a folhagem as águas endureceram nos riachos e pássaros pequenos de peito encarniçado disputam vorazmente invisíveis migalhas esta é a estação da máxima nudez o clima em que se engendra o regressar do solitário e do meticuloso animais rapidíssimos de pelo pardacento esgaravatam transidos soltando breves guinchos de longe a longe venenosas bagas brilham eu levanto-me cedo todas as manhãs e vou fazendo registos destas coisas enquanto aguardo notícias do meu sul (Ultramarino)
"Esta imobilidade é ainda o que mais custa"
esta imobilidade é ainda o que mais custa a insuportável lisura das paredes a ausência destes móveis tão presentes há quem saiba do frio e busque amenidades a mim já me bastava uma incerteza mas apenas reparo que me esqueci do som da tua voz que não me dói saber que me esqueci do som da tua voz que nada mais me interessa além da noite a noite que não traz mais que este peso de estar aqui sentada à tua espera noite infinita desabitada noite aranha lenta sobre a minha nuca (Ultramarino)
Homenagem a Yannis Ritsos
as casas descem pela encosta leste sempre ávidas de sol viradas todas para o mar o declive é suave sem limos nem falésias o sol preguiça por aquelas partes o mar fundíssimo é pródigo e sereno as casas engrinaldam-se de esponjas folhas de parra e pedras esculpidas é a sua forma de retribuir os mareantes passam muito ao largo daquele sítio antigo desaparecido das lendas e dos mapas e nenhum vento trai o seu segredo (Ultramarino)
Inesperadamente
já não te espero ver quando abro a porta mas ainda esbarro com a tua ausência é tudo o que não foste o que não fomos que me atravanca os dias o espelho em que me vejo empalidece como um retrato antigo sinto-me longe é quinta feira Março o tempo não levanta de resto aprendo que a monotonia é apenas isto o regressar contínuo ao vazio das coisas (Ultramarino)