Luís Amorim de Sousa

"este estar só / como quem de repente / se vê sem dar por isso e até que se aperceba / no espelho duma montra / familiar / fugaz / um pouco desfocado / mas pouco a pouco / e de fora para dentro / inteiro e duma vez"

Pintura de Eleutério Martins

Biografia

Poemas:

Biografia

Nascido em Angola. Viveu em Lisboa, Maputo e Londres, onde trabalhou na BBC. Em 1976, ingressa no Ministério dos Negócios Estrangeiros: Washington - Conselheiro de Imprensa junto da Embaixada de Portugal. No mesmo ano transferiu-se para Brasília, Brasil.

Obra poética:

Signo da Balança, 1968, s/l, e. a.;

Norte a Sul, 1981;

Oceanografia, 1984;

Ultramarino, engloba poemas dos 3 primeiros livros, 1997, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda.


A Walt Whitman (fragmento)

"Me imperturbe, standing at ease in nature"
				Walt Whitman

I

página a página 
virando as folhas (todas) uma a uma 
encontro pouco a pouco e duma vez 
o corpo inteiro 
o delta 
deste correr para o mar de sensações 
desordenadas 
íntimas 
agudas 
este estar só 
como quem de repente 
se vê sem dar por isso e até que se aperceba 
no espelho duma montra 
familiar 
fugaz 
um pouco desfocado 
mas pouco a pouco 
e de fora para dentro 
inteiro e duma vez 
noutra realidade 
que sendo inesperada 
se afirma inexcedível 
essa (eu 
diria) 
com que ando por aí de corpo inteiro 
lendo 
portanto 
a tua poesia 

	(Ultramarino)

O velho no parque

é por inconformismo 
que venho aqui sentar-me 
neste parque mais velho do que eu 
há um raio de sol que me conhece 
e vem lamber-me as mãos quando 
me vê 
de resto não suporto este verde molhado 
este romper de brancos e amarelos 
sei de memória as vozes quotidianas 
e atento aguardo a noite 
que as sossega 
a minha noite 
pássaro sem asas 
onde abrigar a célere cabeça

			(Ultramarino)

"os meus navios afundei-os todos"

os meus navios afundei-os todos ante um luar puríssimo humilhado ó meu país ó mapa desdobrado sobre a areia não sei porque te invoco ó sepultura aberta e saqueada existes só no espaço em que te habito aqui numa praia distante entre as rochas e conchas que me ferem os pés e me fazem sofrer invoco-te e és real medonho e impossível ó flâmula hasteada ó marinheiro triste nos porões (Ultramarino)

Palavras do exilado

as árvores já perderam a folhagem 
as águas endureceram nos riachos 
e pássaros pequenos de peito encarniçado 
disputam vorazmente invisíveis migalhas 
esta é a estação da máxima nudez 
o clima em que se engendra o regressar 
do solitário e do meticuloso 
animais rapidíssimos de pelo pardacento 
esgaravatam transidos soltando breves guinchos 
de longe a longe venenosas bagas brilham 
eu levanto-me cedo todas as manhãs 
e vou fazendo registos destas coisas 
enquanto aguardo notícias do meu sul

				(Ultramarino)

"Esta imobilidade é ainda o que mais custa"

esta imobilidade é ainda o que mais custa

a insuportável lisura das paredes
a ausência destes móveis
tão presentes

há quem saiba do frio
e busque amenidades
a mim já me bastava uma incerteza
mas apenas reparo
que me esqueci do som da tua voz
que não me dói saber
que me esqueci do som da tua voz
que nada mais me interessa além da noite
a noite que não traz mais que este peso
de estar aqui sentada à tua espera

noite infinita
desabitada noite
aranha lenta sobre a minha nuca 

			(Ultramarino)

Homenagem a Yannis Ritsos

as casas descem pela encosta leste
sempre ávidas de sol
viradas todas para o mar

o declive é suave sem limos nem falésias
o sol preguiça por aquelas partes
o mar fundíssimo é pródigo e sereno

as casas engrinaldam-se de esponjas
folhas de parra e pedras esculpidas
é a sua forma de retribuir

os mareantes passam muito ao largo
daquele sítio antigo
		desaparecido
			das lendas e dos mapas
e nenhum vento trai o seu segredo

				(Ultramarino)

Inesperadamente

já não te espero ver quando abro a porta
mas ainda esbarro com a tua ausência

é tudo o que não foste
			o que não fomos
que me atravanca os dias

o espelho em que me vejo empalidece
como um retrato antigo

sinto-me longe

é quinta feira
		Março
o tempo não levanta

de resto aprendo que a monotonia
	é apenas isto
o regressar contínuo
		ao vazio das coisas

				(Ultramarino)