Arnaldo Santos

"E esfiavam-se vidas em murmúrios... / E havia olhos postos no caminho... / E eu sentia / que a marca dos meus passos / Calava vozes nas cubatas / Acordava silêncios no negrume."

Gravura de Kidá

Biografia

Poemas:

Biografia

Nasceu na Ingombota, um dos bairros mais antigos de Luanda no ano de 1935. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. Passou a infância e a adolescência no bairro do Kinaxixi, topônimo que ocupa um lugar privilegiado na sua produção narrativa. Perambulou pelos musseques com a turma que, anos mais tarde, recriaria em poesia e prosa. Na década de 50 integrou o chamado "grupo da Cultura". Colaborou em várias publicações periódicas luandenses entre as quais a revista Cultura, o Jornal de Angola (da década de 60), ABC, Mensagem da Casa dos Estudantes do Império. É membro fundador da UEA. Ficcionista importante.

Obra poética:

Fuga, 1960, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império;

Uíge, 1961, Sá da Bandeira, Coleção Imbondeiro;

Poemas no Tempo (contêm os dois livros anteriores), 1977, Lisboa, Edições 70;

Nova Memória da Terra e dos Homens, 1987, Luanda, União dos Escritores Angolanos.


Regresso

Bandeiras sem cores
Tremulam ao vento...

Passa o camião
Onde vozes cantam.
São homens que voltam.

E o sonoro canto
vai longe... longe
as cubatas sós
onde mães esperam.

Baldeiras desejos
Tremulam ao vento

E as vozes deixam
na esteira dura
com o pó da estrada
cantos de renúncia.

E tremulando sempre
Bandeiras sem cores
Agitam desejos.

Nas sanzalas
Nascem vagidos novos!

		(Poemas no tempo)

Contratados

Vinham ao longe 
aglutinados 
baforada de sussurros no horizonte 
ressonâncias fundas de uma força 
determinados 

Uma força que é pendor de gemidos 
de levas passadas 
que arrastaram pobres 

Vinham ao longe 
em conversas vagas 
na tarde baixa resumando dobres 

		(Poemas no tempo)

"Soturnidades suspensas palpitavam no escuro"

Soturnidades suspensas palpitavam no escuro
como pulsações sombrias de ngomas

Havia ecos de falas abafadas
Longínquos sons que o vento move
Cavando distâncias na distância
Fatais
	como a queda livre de uma pedra.

E esfiavam-se vidas em murmúrios...

E havia olhos postos no caminho...

E eu sentia
que a marca dos meus passos
Calava vozes nas cubatas
Acordava silêncios no negrume.

		(Poemas no tempo)

Amanhecer na Katumbela

Kukiou o dia
no canto de um passarinho do muxitu
Ouvi
	e sem depressa
como quem sonha inda

vi
	no Katumbela rio-sacarino
minha mangonha
	canoa nas águas lentas
A sensação
	de nenhum tempo
Estar
 
E olhei a planície	o vale
lugar onde o canavial é dono
é posse
o seu silêncio
	coisas homens
numa canção de abandono

E não ouvi demais
que o canto da madrugada
tinha a voz do murmúrio de kaxexe

Apenas e
lentamente
renascia em mim um novo sono

Então com de repente
despertei

	(Poemas no tempo)