
Biografia
Nasceu no Lubango, Huíla, Sul de Angola, em 1952. É historiadora, tendo obtido o grau de Mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A autora vem atuando em várias atividades ligadas à literatura e à história africana. Foi membro do júri do Prêmio Nacional de Literatura de Angola nos anos de 1988 a 1990 e responsável pelo Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica, em Luanda, de 1983 a 1985. Em 1999, publicou vários estudos sobre a história de Angola na revista "Fontes & Estudos", de Luanda.
Obra poética:Ritos de Passagem, 1985, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
O Lago da Lua, 1999, Lisboa, Editorial Caminho.
Dizes-me coisas amargas como os frutos, 2001, Lisboa, Editorial Caminho.
Mukai*
1
Corpo já lavrado
eqüidistante da semente
é trigo
é joio
milho híbrido
massambala
resiste ao tempo
dobrado
exausto
sob o sol
que lhe espiga
a cabeleira.
2
O ventre semeado
deságua cada ano
os frutos tenros
das mãos
(é feitiço)
nasce
a manteiga
a casa
o penteado
o gesto
acorda a alma
a voz
olha p'ra dentro do silêncio milenar.
3
(Mulher à noite)
Um soluço quieto
desce
a lentíssima garganta
(rói-lhe as entranhas
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo
atravessam-lhe as pernas
e fazem a ligação terra.
Estranha árvore de filhos
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto
navega de tristeza
as horas.
4
O risco na pele
acende a noite
enquanto a lua
(por ironia)
ilumina o esgoto
anuncia o canto dos gatos
De quantos partos se vive
para quantos partos se morre.
Um grito espeta-se faca
na garganta da noite
recortada sobre o tempo
pintada de cicatrizes
olhos secos de lágrimas
Dominga, organiza a cerveja
de sobreviver os dias.
.
* Mukai: - mulher
(O lago da lua)
Canto de nascimento
Aceso está o fogo prontas as mãos o dia parou a sua lenta marcha de mergulhar na noite. As mãos criam na água uma pele nova panos brancos uma panela a ferver mais a faca de cortar Uma dor fina a marcar os intervalos de tempo vinte cabaças deleite que o vento trabalha manteiga a lua pousada na pedra de afiar Uma mulher oferece à noite o silêncio aberto de um grito sem som nem gesto apenas o silêncio aberto assim ao grito solto ao intervalo das lágrimas As velhas desfiam uma lenta memória que acende a noite de palavras depois aquecem as mãos de semear fogueiras Uma mulher arde no fogo de uma dor fria igual a todas as dores maior que todas as dores. Esta mulher arde no meio da noite perdida colhendo o rio enquanto as crianças dormem seus pequenos sonhos de leite. (O lago da lua)
"Não conheço nada do país do meu amado"
Não conheço nada do país do meu amado Não sei se chove, nem sinto o cheiro das laranjas. Abri-lhe as portas do meu país sem perguntar nada Não sei que tempo era O meu coração é grande e tinha pressa Não lhe falei do país, das colheitas, nem da seca Deixei que ele bebesse do meu país o vinho o mel a carícia Povoei-lhe os sonhos de asas, plantas e desejo O meu amado não me disse nada do seu país Deve ser um estranho país o país do meu amado pois não conheço ninguém que não saiba a hora da colheita o canto dos pássaros o sabor da sua terra de manhã cedo Nada me disse o meu amado Chegou Mora no meu país não sei por quanto tempo É estranho que se sinta bem e parta. Volta com um cheiro de país diferente Volta com os passos de quem não conhece a pressa. (O lago da lua)
"Vieram muitos..."
"A massambala cresce a olhos nus" Vieram muitos à procura de pasto traziam olhos rasos da poeira e da sede e o gado perdido. Vieram muitos à promessa de pasto de capim gordo das tranqüilas águas do lago. Vieram de mãos vazias mas olhos de sede e sandálias gastas da procura de pasto. Ficaram pouco tempo mas todo o pasto se gastou na sede enquanto a massambala crescia a olhos nus. Partiram com olhos rasos de pasto limpos de poeira levaram o gado gordo e as raparigas. (O lago da lua)
"Tratem-me com a massa"
"Amparai-me com perfumes, confortai-me com maçãs que estou ferida de amor..." Cântico dos Cânticos Tratem-me com a massa de que são feitos os óleos p'ra que descanse, oh mães Tragam as vossas mãos, oh mães, untadas de esquecimento E deixem que elas deslizem pelo corpo, devagar Dói muito, oh mães É de mim que vem o grito. Aspirei o cheiro da canela e não morri, oh mães. Escorreu-me pelos lábios o sangue do mirangolo e não morri, oh mães. De lábios gretados não morri Encostei à casca rugosa do baobabe a fina pele do meu peito dessas feridas fundas não morri, oh mães. Venham, oh mães, amparar-me nesta hora Morro porque estou ferida de amor. (O lago da lua)
November without water
Olha-me p'ra estas crianças de vidro
cheias de água até às lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes do lixo.
Olha-me estas crianças
transporte
animais de carga sobre os dias
percorrendo a cidade até aos bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.
(O lago da lua)
Abóbora menina
Tão gentil de distante, tão macia aos olhos vacuda, gordinha, de segredos bem escondidos estende-se à distância procurando ser terra quem sabe possa acontecer o milagre: folhinhas verdes flor amarela ventre redondo depois é só esperar nela deságuam todos os rapazes. (Antologia da poesia feminina dos PALOP)
O mirangolo
Testículo adolescente purpurino corta os lábios ávidos com sabor ácido da vida encandesce de maduro e cai submetido às trezentas e oitenta e duas feitiçarias do fogo transforma-se em geleia real: ilumina a gente. (Antologia da poesia feminina dos PALOP)
Rapariga
Cresce comigo o boi com que me vão trocar Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa Filha de Tembo organizo o milho Trago nas pernas as pulseiras pesadas Dos dias que passaram... Sou do clã do boi - Dos meus ancestrais ficou-me a paciência O sono profundo de deserto. A falta de limite... Da mistura do boi e da árvore a efervescência o desejo a intranqüilidade a proximidade do mar Filha de Huco Com a sua primeira esposa Uma vaca sagrada, concedeu-me o favor das suas tetas úberes. (Página na Internet)
Amargos como os frutos
"Dizes-me coisas tão amargas como os frutos..." Kwanyama Amado, porque voltas com a morte nos olhos e sem sandálias como se um outro te habitasse num tempo para além do tempo todo Amado, onde perdeste tua língua de metal a dos sinais e do provérbio com o meu nome inscrito onde deixaste a tua voz macia de capim e veludo semeada de estrelas Amado, meu amado o que regressou de ti é tua sombra dividida ao meio é um antes de ti as falas amargas como os frutos (Dizes-me coisas amargas como os frutos)
Entre os lagos
Esperei-te do nascer ao pôr do sol e não vinhas, amado. Mudaram de cor as tranças do meu cabelo e não vinhas, amado. limpei a casa, o cercado fui enchendo de milho o silo maior do terreiro balancei ao vento a cabaça da manteiga e não vinhas, amado. Chamei os bois pelo nome todos me responderam, amado. Só tua voz se perdeu, amado, para lá da curva do rio depois da montanha sagrada entre os lagos. (Dizes-me coisas amargas como os frutos)
História de amor da princesa Ozoro e do húngaro Ladislau Magyar
Primeiro momento Meu pai chamou e disse: mulher, chegou a hora, eis o senhor da tua vida aquele que te fará árvore Apressa-te Ozoro, parte as pulseiras e acende o fogo. Acende o fogo principal, o fogo do fogo, aquele que arde noite e sal. Prepara as panelas e a esteira e o frasco dos perfumes mais secretos Este homem pagou mais bois, tecidos e enxadas do que aqueles que eu pedi este homem atravessou o mar não ouvi falar do clã a que pertence o homem atravessou o mar e é da cor do espírito Nossa vida é a chama do lugar Que se consome enquanto ilumina a noite Voz de Ozoro: Tate tate meus todos parentes de sangue os do lado do arco os do lado do cesto tate tate porque me acordas para um homem para a vida se ainda estou possessa de um espírito único aquele que não se deu a conhecer meu bracelete entrançado não se quebrou e é feito das fibras da minha própria essência cordão umbilical a parte da mãe meu bracelete entrançado ainda não se quebrou Tate tate ouve a voz de meu pequeno arco esticado as canções de rapariga minha dança que curva a noite ainda não chegou meu tempo de mulher o tempo que chegou é lento como um sangue que regula agora as luas para mim de vinte oito em vinte e oito dias Segundo momento Voz de Magyar: Senhor: Atravessei o mar de dentro e numa pequena barcaça desci de Vardar para Salônica, durante a batalha das sombras. De todas as montanhas, a que conheço expõe um ventre de neve permanente e uma pele gretada pelo frio. Nasci perto do Tisza Negro, junto à nascente. Naveguei um oceano inteiro no interior de um navio habitado de fantasmas e outros seres de todas as cores com as mesmas grilhetas. Como eles mastiguei devagarinho a condição humana e provei o sangue o suor e as lágrimas do desespero. São amargos, senhor, são amargos e nem sempre servem a condição maior da nossa sede. Vivi durante muitos meses o sono gelado da solidão. Senhor Eu trago um pouco de vinho sonolento do interior da terra e a estratégia de uma partida húngara, levo o bispo por um caminho direto até à casa do rei, senhor. Por isso aqui estou e me apresento, meu nome igual ao nome de meu povo, Magyar, os das viagens, Magyar, o dos ciganos. Senhor Eu trouxe meus cavalos e vos ofereço minha ciência de trigo, em troca peço guias dos caminhos novos, alimento para as caravanas, licença para o Ochilombo e a mão de Ozoro a mais-que-perfeita. Senhor, deixai que ela me cure da febre e da dor que trago da montanha para lá dos Cárpatos. Senhor, deixai que ela me ensine a ser da terra. Terceiro momento Coro das mais velhas: Fomos nós que preparamos Ozoro, na casa redonda muitos dias, muitas noites na casa redonda Fomos nós que lhe untamos, de mel, os seios na casa redonda Com perfumes, tacula e fumo velho esculpimos um corpo na casa redonda Nosso foi o primeiro grito perante tanta beleza: Oh, rapariga na palhoça, sentada, ergue-te para que possamos contemplar-te! Quarto momento Vozes das meninas: Meu nome é terra e por isso me movo lentamente meia volta, uma volta, volta e meia, para que o tempo me encontre e se componha. Sou a companheira favorita de Ozoro do tempo da casa redonda. Meu nome é pássaro, como o nome do clã a que pertenço. Com Ozoro descobri o lago e as quatro faces da lua, e vi primeiro que todos a cintura de salalé que se contrai à volta das nossas terras. Meu nome é flor e sou especialmente preparada para cuidar do lugar onde a alma repousa. Com Ozoro eu tenho o cheiro, guardado no frasco de perfumes mais pequeno - o do mistério. Meu nome é princípio e eu tenho as mãos do lugar e a ciência dos tecidos como as mais velhas. Para Ozoro, a princesa, eu já teci o cinto de pedras apertadas, o mais belo cinto, de contas vindas do outro lado do tempo da própria casa de Suku. Para o tecer preparei todos os dias as mãos com preciosos cremes da montanha. Apertei cada conta no nó fechado igual ao que fecha a vida em cada recém-nascido. Para Ozoro eu teci o cinto mais apertado das terras altas. Meu nome é memória e com as velhas treinei cada fala - a do caçador nas suas caçadas - a dos homens no seu trabalho - o canto das mulheres nas suas lavras - a das raparigas no seu andar - o canto da rainha na sua realeza - o som das nuvens na sua chuva Na lavra da fala faço meu trabalho, como a casa sem porta e sem mobília, não tão perfeita como a casa onde o rei medita, tão redonda como a casa onde Ozoro e as meninas aprenderam a condição de mulheres. Coro das meninas: A casa das mulheres A casa da meditação A casa da chuva A casa das colheitas A casa das meninas: Terra, Flor, Pássaro, Princípio, Memória Fala do fazedor de chuva: Eu que amarrei as nuvens, deixei chover dentro de mim. Deixei uma nuvem solta, grande e gorda de chuva rebentar dentro de mim. Sangro em utima meu pranto de nuvens, choro em Osande a princesa perfeita, a minha favorita. Coro dos rapazes: Desde ontem ouvimos o rugir do leão atrás da paliçada E as palavras mansas do velho sábio dentro da paliçada Desde ontem que o leão não se afasta detrás da paliçada E se ouve o velho que fala com o leão atrás da paliçada Desde ontem o feiticeiro acende o fogo novo dentro da paliçada E se espalham as cinzas do fogo antigo atrás da paliçada Diante de ti, Ozoro, depositamos a cesta dos frutos e a nossa esperança Fala da mãe de Ozoro: Fui a favorita, antes do tempo me ter comido por dentro. Semeei de filhos este chão do Bié. Para ti, Ozoro, encomendei os panos e fiz, eu mesma, os cestos, as esteiras. Percorri os caminhos da missão. Encontrei as palavras para perceber a tua nova língua e os costumes. Com as caravanas aprendi os segredos do mar e as histórias. Deixo-te a mais antiga História do pássaro Epanda e do ganso Ondjava Há muito muito tempo estas duas aves decidiram juntar forças e fazer o ninho em conjunto. Ondjava era um animal muito limpo e lavava e cuidava dos seus ovos e da sua parte do ninho. Quando nasceram os filhos, os pequenos de Epanda estavam sempre muito sujos e feios, enquanto os de Ondjava deixavam que o sol multiplicasse de brilho as suas penas. Um dia, Epanda raptou e escondeu os filhos de Ondjava quando esta se afastara em busca de comida. Ondjava chorou muito e, enquanto recorria ao juiz para resolver o caso, cuidou dos outros filhos, lavou o ninho todo e armazenou comida para o cacimbo. Um dia os filhos limpos de Ondjava voltaram e o juiz determinou pertencerem a esta ave, ninho, filhos e ovos, porque só merece o lugar quem dele cuida, quem o sabe trabalhar. Coro: Só merece o lugar que o sabe trabalhar Só é dono do lugar aquele que o pode limpar Fala de Ladislau Magyar, o estrangeiro: Amada, deixa que prepare o melhor vinho e os tecidos e que, por casamento, me inicie nas falas de uma terra que não conheço no gosto de um corpo que principio Amada, há em mim um fogo limpo para ofertar e o que espero é a partilha para podermos limpar os dois o ninho para podermos criar os dois o ninho. Fala dos feiticeiros: Podemos ver daqui a lua e dentro da lua a tua sorte, Ozoro aprenderás a caminhar de novo com as caravanas e estás condenada às viagens, Ozoro teus filhos nascerão nos caminhos serão eles próprios caminhos da Lunda do Rio Grande se o cágado não sobe às árvores, Ozoro alguém o faz subir! Última fala de Ozoro antes da viagem: Amar é como a vida Amar é como a chama do lugar que se consome enquanto se ilumina por dentro da noite. (O lago da lua)
A manga
Fruta do paraíso companheira dos deuses as mãos tiram-lhe a pele dúctil como, se de mantos se tratasse surge a carne chegadinha fio a fio ao coração leve morno mastigável o cheiro permanece para que a encontrem os meninos pelo faro (Raízes do porvir, de Domingos Florentino)
A mãe e a irmã
A mãe não trouxe a irmã pela mão viajou toda a noite sobre os seus próprios passos toda a noite, esta noite, muitas noites A mãe vinha sozinha sem o cesto e o peixe fumado a garrafa de óleo de palma e o vinho fresco das espigas [vermelhas A mãe viajou toda a noite esta noite muitas noites [todas as noites com os seus pés nus subiu a montanha pelo leste e só trazia a lua em fase pequena por companhia e as vozes altas dos mabecos. A mãe viajou sem as pulseiras e os óleos de proteção no pano mal amarrado nas mãos abertas de dor estava escrito: meu filho, meu filho único não toma banho no rio meu filho único foi sem bois para as pastagens do céu que são vastas mas onde não cresce o capim. A mãe sentou-se fez um fogo novo com os paus antigos preparou uma nova boneca de casamento. Nem era trabalho dela mas a mãe não descurou o fogo enrolou também um fumo comprido para o cachimbo. As tias do lado do leão choraram duas vezes e os homens do lado do boi afiaram as lanças. A mãe preparou as palavras devagarinho mas o que saiu da sua boca não tinha sentido. A mãe olhou as entranhas com tristeza espremeu os seios murchos ficou calada no meio do dia. (Dizes-me coisas amargas como os frutos)
O cercado
De que cor era o meu cinto de missangas, mãe feito pelas tuas mãos e fios do teu cabelo cortado na lua cheia guardado do cacimbo no cesto trançado das coisas da avó Onde está a panela do provérbio, mãe a das três pernas e asa partida que me deste antes das chuvas grandes no dia do noivado De que cor era a minha voz, mãe quando anunciava a manhã junto à cascata e descia devagarinho pelos dias Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera p'ra lá do cercado (Dizes-me coisas amargas como os frutos)